Ideb mostra “abismo” entre escolas de Mato Grosso


O Jornal A Gazeta, na edição de segunda-feira, 19 de julho, publicou matéria assinada por Raquel Ferreira, onde mostra diferença entre as notas do Ideb de 530%, o que evidência a falta de uma política de educação consistente.

Devido a relevância do tema, decidimos publicá-lo na íntregra no Bom Dia Mato Grosso.
 

O Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) mostrou um abismo no ensino público de Mato Grosso. A diferença das notas chega a 530% entre a pior e a melhor escola, todas geridas pela Secretaria de Estado de Educação (Seduc). Várzea Grande abriga a unidade de ensino com o pior índice (1,3). Na outra ponta está Rondonópolis (212 km ao sul de Cuiabá), que conseguiu atingir 6,9 na avaliação, a melhor. As diferenças entre as 2 instituições são evidentes.

Absurdo
Reforma da Escola Estadual  Júlio Müller, no bairro Cristo Rei, na cidade de Várzea Grande, ultrapassa a 1 ano e meio.
 
Rua Manoel Vargas – Cristo Rei
Várzea Grande – MT, 78118-120
(0xx)65 3685-1163

 
Em último no ranking no Ensino Fundamental, séries finais, a Escola Estadual Júlio Strubing Müller, em Várzea Grande, é o retrato da falta de infraestrutura, que atinge outras unidades no Estado. Há 1 ano e meio começou uma reforma e os alunos do período da manhã usam salas de uma universidade particular do município, espaço garantido por meio de um convênio. Mas este convênio terminou e as obras não. Diante disso, os alunos enfrentam mais um problema. As férias foram antecipadas e vão durar mais do que prevê o calendário. No período da noite, as aulas são na escola pública Domingos Sávio. Os 1,3 mil alunos são das turmas do 8º e 9º ano e Ensino Médio.

O diretor Sandro Donizette de Morais aponta que a escola tem apenas 3 salas de 8º ano (antiga 7ª série) e 2 de 9º ano (antiga 8ª série) e que os alunos chegam na unidade com sérios problemas de formação básica, como leitura e cálculos. “Fica complicado ensinar a base para os estudantes que estão em anos adiantados”.

Sandro destaca ainda a ausência dos pais na vida escolar dos filhos e afirma que só 15% comparece às reuniões. “A participação da família é um ponto crucial para a educação”.
A maioria dos alunos da escola Júlio Müller é carente, sofre com a desestrutura familiar e mora em bairros distantes. O diretor diz que existem muitos estudantes desinteressados, delinquentes e usuários de drogas. Apesar das justificativas, Sandro afirma que no próximo semestre conversará com os professores para identificar a fundo os problemas e buscar meios para melhorar o Ideb, que historicamente é baixo no Júlio Müller – alcançou 2,1 em 2007 e 2,0 em 2005.

Na outra ponta – A melhor nota do Ideb em Mato Grosso foi da Escola Estadual Sagrado Coração de Jesus, em Rondonópolis (212 km ao sul de Cuiabá). A unidade teve médias 5,7 nas séries finais e 6,9 nas séries iniciais, a melhor do Estado.

Para a diretora irmã Fátima Lima o diferencial da escola é o atendimento personalizado dispensado aos alunos com dificuldade, envolvimento dos pais na educação, equipe profissional integrada e comprometida com a educação. “Fazemos um trabalho sério e não damos trégua para os alunos, cumprimos um calendário rigoroso de ensino. Tenho que ressaltar ainda o empenho da equipe, que está sempre se aperfeiçoando”.

O Sagrado Coração de Jesus tem 650 alunos, que desfrutam de salas de informática, auditório, biblioteca, salão aberto com palco, pátio arborizado e gruta. Irmã Fátima destaca que a maioria dos estudantes são de famílias carentes, com problemas semelhantes aos vivenciados por todas as outras unidades escolares. “Nossa evasão aqui é 0. Fazemos um trabalho próximo com a família da criança, entendendo que nem sempre a família atual é nosso antigo conceito”.

Cuiabá - As disparidades de notas também são realidade do ensino da Capital, onde as Escolas Estaduais Souza Bandeira e Nilo Póvoas se contrapõem. A primeira alcançou média 5,6 no Ensino Fundamental séries finais, enquanto a segunda teve nota 2,2.

A coordenadora do Nilo Póvoas, Laura Vicuña Ribeiro Nascimento, questiona o resultado do Ideb e destaca que a nota dos alunos na Prova Brasil foi de 4,65, bem acima da média apresentada. Ela destaca que a reprovação e a evasão escolar foram responsáveis pela queda dos pontos. “Em termos de ensino o Nilo Póvoas não é um colégio ruim. A forma de avaliação do Ideb foi injusta com os alunos e com a escola, além de não representar a realidade do colégio. Temos o projeto Mais Educação, Poesia Necessária, entre outros para segurar e dar apoio a esse aluno”.

A ausência dos pais também é destacada pela coordenadora. “Temos 1,1 mil alunos matriculados e a participação dos pais não chega a 100. Entendo a situação. Muitos pais trabalham, atendemos alunos de 52 bairros distantes, temos alunos de Santo Antônio do Leverger, da Guia”.

Laura destaca que é frequente a participação de estudantes do Nilo Póvoas nas Olimpíadas de Matemática, Deputado Mirim, entre outros projetos de destaque nacional, mostrando que a escola não é ruim. Ela afirma ainda que todos os professores são graduados, muitos se preparando para fazer doutorado.

O desinteresse do próprio aluno também é lembrado pela coordenadora, que aponta deficiência de estudantes vindos de outras unidades de ensino. “Tem que ser artista para conseguir prender a atenção deles. Sem contar que muitos vem de outras escolas com problemas sérios de base”.

Destaque – Do outro lado, está a Escola Estadual Souza Bandeira, que comporta 920 alunos do Ensino Fundamental. Com baixa evasão escolar, a coordenadora Angela Maria Xavier Dornelas comenta que a proposta educacional da escola é bastante visada pelos pais. “Nossos alunos entram pequenos e saem somente para fazer o Ensino Médio. Conhecemos a família, as dificuldades do aluno e fica mais fácil para trabalhar”.

A coordenadora destaca o comprometimento dos profissionais, os projetos estratégicos diferenciados e o “olhar cuidadoso” ao aluno, como alguns elementos que fazem o sucesso do Souza Bandeira perante a sociedade. Como parte do atrativo estão os laboratórios de informática, sala de vídeo, biblioteca, projeto de fanfarra. Para reforçar as deficiências, este ano foi implantada a sala de articulação.

Seduc - O Ideb avalia escolas e alunos do Ensino Fundamental – divididos em séries iniciais (1º ao 5º anos) e séries finais (6º ao 9º ano) – e Ensino Médio de todo o país. As médias escolares são feitas com base na nota dos alunos no Prova Brasil, reprovação e evasão escolar de cada unidade de ensino.

Em Mato Grosso, a Seduc comemorou as notas do Ensino Fundamental, que alcançou média acima dos números nacionais. A média brasileira das séries iniciais foi de 4,6 e das séries finais de 4,0, enquanto a rede pública estadual conquistou 4,9 e 4,2, respectivamente. Já o Ensino Médio do Estado se mostrou preocupante frente aos seus 2,9 contra a média brasileira de 3,6.

A secretária-adjunta de Polícias Educacionais do Estado, Fátima Resende, destaca que a orientação pedagógica é igual para todas as escolas geridas pela Seduc, porém os gestores têm a liberdade de administrar conforme a sua realidade e entendimento. Ela destaca ainda que a interação da comunidade com a escola tem peso no rendimento e atração dos alunos pelo seu colégio.

Fátima comenta que a reforma da Escola Júlio Müller pode ter fragilizado o processo pedagógico, mas entende que o espaço físico não é o fator determinante para o aprendizado. “A melhor escola do Rio Grande do Sul no Ideb está dando aulas dentro de contêiners. O que determina é a pedagogia aplicada, que deve atender as expectativas das crianças e adolescentes. Isso é uma escola atrativa. Os projetos pedagógicos devem cativar os alunos”.

Para a secretária, a má-formação de alunos vindos de outras escolas também não é justificativa para os gestores, uma vez que é missão do colégio integrar este estudante e reparar as suas dificuldades. “A escola funciona em rede. O aluno com problema deve ser trabalhado para melhorar”.

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